Cultbox

Não Leia

1 toque. 2 toques. [nãoleia]

se conheceram e decidiram que, para fazer perdurar o clima de paquera, iriam fazer diversos jogos.

um deles era, depois que se despedissem, ela ligasse pra ele sem falar nada e respondesse as perguntas com:

1 toque no botão 1 = sim.

2 toques no botão 1 = não.

- alô? você está aí?

- 1.

- que bom. [isso vai ser legal] essa noite foi ótima. foi muito bom te conhecer. você também gostou?

- 1.

- acha que a gente pode se ver de novo?

- 1.

- agora?

- 2.

- tudo bem. esse mistério é legal, né?

- 1.

- que bom que você concordou comigo nessa maluquice, mas sabe como é, né? esse clima de paquera é mesmo fantástico. uma dia a gente vai lembrar disso e contar essa história por aí. tenho certeza.

- 1.

- que sensação boa, né?

- 1.

- te amo.

[sinal de ocupado]


auto. [nãoleia]

estava decidida.

não suportou a pressão.

a vida não dava mais para ela. precisava fazer aquilo.

foi até o andar mais alto do prédio – e você pode imaginar em câmera lenta, tipo filme, com trilha de edith piaf – para acabar de uma vez por todas com aquela angústia.

andou até a ponta e viu a cidade inteira, ainda iluminada.

parou e fechou os olhos, como se estivesse ouvindo a música de trilha.

respirou fundo, olhou para os lados e ficou ali por mais alguns minutos, enquanto o vento batia nos cabelos e enfatizava ainda mais aquele olhar expressivo.

o tempo que ela levou pensando nos últimos minutos, foi justamente ele precisou para chegar antes que ela cometesse aquela bobagem.

ele correu até ela com a máxima velocidade que conseguiu.

chegou a tempo e perguntou, o que tinha feito de tão errado para que ela tivesse prestes a fazer aquilo.

ela tranquilizou o pobre rapaz quando disse que não havia nada de errado com ele. o problema era o maldito livro de auto-ajuda que tinha ganho no natal. e não foi dele. foi no amigo secreto da empresa, de alguém que mal a conhecia.

eles contaram juntos:

- 1,

- 2,

- 3,

jogaram o livro infernal do vigésimo oitavo andar.

o autor merecia aquilo.


Feliz Natal

do alto dos seus 6 anos, ele pega uma caneta e uma folha de papel para escrever, porque não acredita que o velhinho leia cartas digitadas no computador.

“querido Noel (posso te chamar assim, né?), tô te escrevendo primeiro pra pedir desculpa por ser um esquecido. sabe como é, provas no meio do semestre, essas coisas, terminou que não deu tempo de escrever em junho. mas agora eu tô aqui, pra pedir desculpa pelo esquecimento, pra agradecer porque esse ano você mandou o meu presente de natal adiantado e pra pedir mais uma coisinha, se for possível.

antes que o senhor diga – ‘esse menino não tem jeito!’, essa carta não é pra enrolar o senhor.

essa carta é pra dizer que ao invés de mandar outro presente no natal, que eu nem devo merecer, porque fui um pouco desobediente esse ano e andei tirando umas notas baixas, eu queria que o senhor fizesse com que eu não enjoasse nunca daquele que ganhei em junho, tá? eu tô gostando muito dele. arrisco dizer até que estou apaixonado pela primeira vez e é pra valer.

se não for pedir muito, quebra esse galho pra mim. eu prometo que vou cuidar muito bem dele. prometo mesmo. não como prometo que vou tirar notas boas, mas como eu prometo que vou ganhar no futebol.

um abraço”.

 

sem que o pequeno esperasse, ele recebe uma resposta.

era a primeira carta que ele havia recebido dos correios com o nome completo dele.

sem muitas delongas, o velho responde:

“filho, infelizmente eu só trabalho com presentes. esse negócio de sentimento não é meu departamento, mas eu consegui falar com o pessoal desse setor e eles vão mandaram avisar que vão ver o que podem fazer por você. fico feliz que você tenha gostado do presente. foi com bastante carinho. cuida bem dele que vai dar tudo certo.

e sim, pode me chamar de noel.

um abraço”.


senso. [nãoleia].

pela liberdade de usar o clichê, a começar pelo termo ‘clichê’.

dance na sua formatura com we are the champions.

entre na igreja com a marcha nupcial.

mande o soneto da fidelidade para sua amada.

mande uma música da banda-do-momento-da-última-semana.

cante uma música da banda-do-momento-da-última-semana.

cante more than words para sua paquera.

dane-se o jeito cool dela.

assista comédias românticas.

dê gargalhadas das comédias românticas.

conte pros seus amigos que gostou e que veria de novo e iria rir do mesmo jeito.

dane-se aquele cara que vai te recriminar com os olhos.

leia clarice lispector, caio fernando abreu, luis fernando veríssimo.

leia a turma da mônica, leia revistas de fofoca das novelas.

poste nas suas redes sociais. “cinema. partiu. balada. partiu. casa. partiu. facul. partiu”.

use o mesmo estilo de todo mundo. afinal, ninguém é percursor de nada.

continue fã de renato russo.

diga em voz alta “você diz que seus pais não entendem, mas você não entende os seus pais”.

diga em voz alta que você é fã de pagode.

cante em voz alta “que se chama amor, tomou conta do meu ser”.

ria em caixa alta e baixa.

escreva em caixa alta como se estivesse gritando para o mundo.

desconheça tarantino e  scorsese.

pra quê saber pronunciar shyamalan.

woody quem?

assista programa de auditório.

divirta-se com isso.

não esconda o que você gosta de fazer.

danem-se os chatos como eu.


carta de agradecimento.

renato é um cara que formou o seu caráter musical através das ex-namoradas. por isso, o termo “ex” não era um peso pra ele. estava mais para um motivo de orgulho.

era tudo que ele precisava para escrever essa carta de agradecimento.

a lua, agradeço por chico. chico é chico. se tornou vício, que só deixou quando conheceu marina.

a marina, agradeço por caetano. que me fez largar chico e gostar de outra coisa além dele.

a laura, agradeço pelos mutantes. foi quando comecei a curtir algumas coisas mais modernas. arnaldo baptista e rita lee se tornaram essenciais na minha vida, o tanto que a pobre laura não conseguiu ser, mas me deixou um belo presente. obrigado por isso.

a raquel, agradeço pelo radiohead. 15 step ainda continua sendo tipo uma ave-maria pra mim. todos os dias, religiosamente às 18:00.

a karina com “k”, agradeço pelos strokes. apesar de modinha, é sempre útil para uma formação musical decente que inclua rock’n roll.

e por falar em rock’n roll decente, agradeço também a cláudia, que fez com que eu visse a importância de sid vicious e claro, do nirvana. louvado seja kurt? não. louvado seja dave growl, que ficou por aí e ainda montou o foo fighters.

mas nem só de rock vive o homem. cartola foi uma das bençãos que maria luisa – a malu – trouxe. disfarça e chora é a cara de uma manhã de um domingo preguiçoso.

agradeço também a maria helena por joão nogueira, joão gilberto e joão bosco. ô maria pra gostar de joão.

tantas outras, tantas influências, tantas canções. essas são as que formaram o meu gosto musical.

como renato nunca namorou com nenhuma fã de legião urbana, ainda não suporta ouvir a voz do xará.

“xará é o cacete!”

 


amor no volume 25.

 

exatos vinte e oito minutos depois de se despedir, ele liga para ela em estado de euforia:

- cabeça, criei uma nova teoria.

- conta, amor.

- sabe o que é…

- me diz.

- então. criei uma nova teoria.

- qual? existe uma maneira de o ciclope ficar sem óculos?

- não.

- uma teoria sobre o capacitor de fluxo?

- não, linda.

- descobriu uma réplica do delorean por uma pechincha?

- também não. me escuta, por favor.

- achou um easter egg naquela frase do harvey dent sobre a hora mais escura da noite?

- não.

- alguma coisa a ver com watchmen?

- não, não.

- filme novo de matheus souza?

- não.

- livro novo de Efraim?

- hmmm… desisto.

- descobri que aquele aparelho do meu carro que chamam de som… sabe? ele mede o volume do meu amor por você.

- como assim?

- então, toda vez que eu saio da sua casa, ligo o som em qualquer música e o volume que eu coloco diz tudo. é incrível como ele me move. me faz dançar ridiculamente – hoje mesmo o motoqueiro riu de mim – e fazer essas coisas que você só faz… amando, né?

- seu nerdinho lindo.

[silêncio]


semtítulo.

 

não que você vá me escutar, mas se eu fosse você que está prestes a casar, não chamaria seus amigos pra serem padrinhos do seu casamento.

o motivo é simples: uma hora você pode brigar com o fulaninho que ficou bem do seu lado na igreja.

outra hora aquele casal perfeito que foi padrinho da sua noiva podem se separar e você nunca vai poder chamar os dois pra tomarem um vinho na sua casa.

também pode acontecer o simples fato de você ter chamado alguém só por educação.

ou você pode ter tido a brilhante ideia porque numa bebedeira qualquer você decidiu que aquele cara – que você conheceu naquela noite – seria o seu herói porque aguentou com você até as últimas. { um belo critério de decisão para escolher o seu padrinho de casamento }

várias outras coisas podem acontecer. vai pensando.

a ideia é a seguinte: chame pra ficar do seu lado o cara que tocou “a música de vocês”.

aí você vai me dizer:

- tu acha que chico buarque vai pro meu casamento?

{ tenha mais criatividade, meu caro. escolha uma música verdadeiramente só de vocês. um cantor desconhecido, que não corra o risco de chegar numa mesa de bar e mais três casais terem a mesma jurando que ninguém nunca pensou nisso }

voltando…

chame o escritor que escreveu a primeira poesia que você leu pra ela. com a mesma regra das músicas.

tente chamar diretor do filme preferido de vocês. é mais fácil que ele vá do que o ator principal.

chame o garçom do primeiro restaurante que vocês foram. e tente casar num dia que ele esteja de folga.

não chame o cara que entregou flores pra ela no trabalho. na verdade, faça ela esquecer isso, porque foi bem brega.

nesse grau de importância, faça uma lista dos seus padrinhos.

se você conseguir que todo mundo vá, esse relacionamento nunca vai precisar de provas de amor.

se você chamar o cara que te deu essa ideia, é a prova de que a minha teoria estava certa.


obrigado, cara.

andando por um bairro boêmio de são paulo, o cidadão avista de longe aquele gordinho, baixinho, barbudo, de óculos de grau – o que dificultou um pouco o reconhecimento imediato – sentado, tomando uma cerveja, com um livro verde, fininho, em cima da mesa.

ele chega mais perto, mais perto e tão perto que está quase colando o rosto no rosto do pobre coitado que estava tranquilo, tomando a sua cerveja sozinho.

a pergunta inevitável.

- oi.

- oi.

- você por acaso é o fabrício corsaletti?

tirando o livro da mesa, ele mostra a capa de esquimó.

- isso.

- escritor, fabrício corsaletti.

- isso mesmo.

ele puxa a cadeira mais próxima, senta sem cerimônia e levanta o indicador, olhando pra dentro do bar.

- bigode! bigode! traz mais uma.

fabrício fica um pouco desconfortável, mas decide saber até onde isso vai chegar.

o cidadão, numa euforia sem tamanho, continua sua saga.

- sabe o que é, cara? eu precisava pagar essa cerveja pra você.

- e por que motivo, mesmo?

- sabe o poema desse livro aí?

- seu nome?

- ele mesmo. pronto. você não sabe como ele me ajudou. esse poema é genial… bigode, porra! traz mais uma que é por minha conta. aceita um tira-gosto?

- não, não. tô bem. continua.

- então, conheci a mulher da minha vida graças a ele. eu mandei aquele vídeo que tem você lendo, ela se apaixonou. é o – ele fez o sinal com as mãos – “nosso” poema. essa cerveja é o mínimo que eu poderia fazer por você. de verdade, muito obrigado.

no exato momento, vem uma mulher linda, parecidíssima com olivia wilde, em direção a mesa dos dois.

- brigadão, cara. de verdade. espero que você seja muito feliz com a sua mulher. agora vai indo, que essa mulher tá vindo aí pra eu recitar o poema pra ela.

 

 

ps: se você não conhece, o poema é esse aqui ó: http://www.youtube.com/watch?v=4Zvgg7Mp49M

se você for usar com alguém, comenta aqui, que eu te passo o email do cara pra você agradecer depois.


superstição [nãoleia].

[trilha: tempo de pipa - cícero]

saíam para jantar juntos quase todas as noites.

na hora de pagar a conta, a mesma briga. ninguém queria deixar que o outro se desse ao trabalho. afinal, isso não é cavalheirismo, direitos iguais e todos as desculpas imagináveis para esse tipo de situação.

chegaram a uma conclusão que não resultaria mais em brigas. um dia ele paga, no outro dia fica por conta dela.

na noite anterior, ele jurava que ela tinha pago da última vez e ele jurava que ela é quem tinha pago. na confusão, ela decide que não vai aceitar de forma alguma aquele insulto e que era sua obrigação moral e cívica contribuir com algum dinheiro para o jantar.

na verdade, ele sentia que com aquele dinheiro, comprava um pouco mais de tempo na presença dela e por isso, sempre fazia questão de abrir os bolsos. tudo era muito óbvio.

no vai e vem da discussão, ela decide deixar algumas cédulas no carro, quase que escondidas, sem que ele percebesse de cara e não insistisse no reembolso.

ele descobre o dinheiro “ilegal” dentro do carro e como um supersticioso de primeira linha, pega a primeira caneta BIC que vê pela frente, rabisca o dinheiro, e sorrateiramente, coloca de volta na bolsa dela com a seguinte frase:

‘se você pegou esta cédula, favor não devolver. ou você vai ter muito, mas muito azar no amor’.


bom dia. [não leia]

acordou, fez o café da manhã dos dois, com direito a cereal com a quantidade certa de leite.
pegou um disco antigo e colocou a música preferida dos dois para tocar.

passeava pelo quarto vestindo a camiseta de super-herói dele, andando na ponta dos pés, para ele não acordar antes da hora com um mal humor maior do que o normal.

voltou para cozinha para se certificar que o pão ainda estaria quente na hora que ele abrisse os olhos e ainda estivesse se espreguiçando na cama.

tudo em ordem.

voltou para o toca discos e repetiu a música, porque já era a hora e ele já estava prestes a acordar, pontualmente, às 8:37.

ela pegou a comida, meio desajeitada, com medo de derrubar o leite do cereal e correu para o quarto.

ele abriu, os olhos, se espreguiçou como sempre e a primeira coisa que ele viu foi a tigela de cereal com o leite na medida que ele adorava. nem tinha percebido que ela estava vestida apenas com a camiseta de super-herói, nem que estava tocando a música preferida dele, mas percebeu que o cuidado dela estava no leite, na medida certa. nem muito, nem tão pouco.

ele não se contém.

- gastei.

- o que?

- a minha sorte.

- como assim?

- nunca mais vou ganhar na mega sena. gastei a minha sorte.

ela ficou em silêncio por alguns segundos, pensou no que tinha ouvido e respondeu calculadamente:

- isso é bom ou ruim? compensa a perda do prêmio?

- foi igual ao leite do cereal. se viesse muito, eu iria estragar, deixar de lado. se viesse pouco, eu iria reclamar que tava faltando alguma coisa. foi do jeitinho que está aqui. na medida certa.

ela voltou para cozinha com a desculpa de que iria trocar o disco, mas na verdade queria dar um sorriso largo escondida dele.


Torta de amora.

é igual a sobremesa.
fica pro final, porque é mais gostoso. pro começo, se você for muito esquisito.

é pequeno, porque deixa você querendo mais.

tira a atenção de qualquer prato principal, porque no final das contas é muito melhor que todos eles.

tem gente que não gosta. mais do que natural.

essas pessoas que não gostam, morrem sem provar do que existe de melhor nesse mundo.

é igual a sobremesa porque depois da primeira colherada, é irreversível.

dói não poder comer.

dói não poder experimentar.

dói não poder aproveitar devagarzinho, do começo ao fim.

é igual a sobremesa porque nem sempre tem numa refeição. e esse é o grande motivo das refeições silenciosas.

nem sempre tem a hora que você quer.

mas existe. é lindo. é delicioso e a sensação é inescrevível.

enfeia, engorda, mas você não consegue largar.

gordinhos são felizes porque abusam.

modelos são tristes porque mal podem usufruir.

compulsivos sempre são mal vistos.

é igual a sobremesa porque não precisa nem falar o que é, mas você já fecha os olhos e imagina a sua preferida.


14 de junho. [nãoleia]

Pensou na mesa da varandinha.

Pensou no vinho italiano que ela adorava.

Pensou na sobremesa que faz carinho na boca de tão boa.

Pensou no estacionamento vazio.

Pensou no restaurante só deles. Como se ele fosse o dono, já que conhecia todos os garçons.

Pensou na mesa com a vista linda só deles.

Pensou no dia que era só deles. Dia 13 de junho. O dia dos namorados, para eles.

A surpresa conseguiu estragar todos os planos.

- que trânsito é esse?

[corte seco]

- esse trânsito não acaba?

[corte seco]

- como assim, lotado? hoje é dia 13. Isso é impossível.

a garçonete responde com todo cuidado para não partir o coração dele.

- senhor, queira nos desculpar. A próxima mesa pra duas pessoas tá prevista pra desocupar dentro de uma hora. vai esperar?

- não.

Voltou pra casa com toda a raiva que cabia dentro de si e foi postar no blog. Tinha que escrever como aquilo tinha incomodado ele profundamente.

No último post, que ele tinha escrito um texto lindo sobre “o dia dos namorados deles”, com direito a declaração de amor mais linda de todas -uma versão adaptada de 500 dias com ela – tinham misteriosos 573 comentários, elogiando o texto mais bonito de todos e claro, a brilhante ideia de comemorar o dia dos namorados um dia depois da data oficial.

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semtítulo. [número "perdi as contas"]

nunca pensei em escrever por encomenda. [mentira, eu ganho dinheiro pra isso]
mas escrever conto por encomenda, soa meio estranho. pra falar a verdade, me deixa triste.

e a inspiração?

e o estalo?

e a desventura amorosa que teu amigo acabou de te contar?

e aquela frase genial que o cara que senta do teu lado acabou de dizer e você precisa eternizar ela naquele momento?

onde ficam?

faltando 15 minutos pra hora de postar, de onde você tira tudo isso? no meu caso, sempre escrevo coisas obrigatórias em cima da hora.

se eu tiver que assinar um documento, vai ser quando a mulher do banco me pedir irritada, não enquanto eu tô na fila pensando em alguma coisa pra escrever. claro, eu tô ocupado pensando no que escrever, tendo o estalo, lembrando de uma história ou ouvindo uma frase genial que o velhinho da fila acabou de dizer. isso é muito simples na minha cabeça.

mas e agora?

a magia acabou?

os filmes sobre escritores não fazem mais sentido?

o romance não existe?

convenhamos, eu não acredito que Salinger escreveu o apanhador no campo de centeio porque ele tinha obrigação. moral, talvez.

1984 não é uma obra prima à toa. escrever por encomenda não bate com o conceito do livro.

Garcia Marquez não rasgou elogios a Juan Rulfo pela rapidez que ele escreveu o seu livro. Pedro Páramo tem cada palavra no lugar certo porque o cara era paciente.

Efraim Medina (mais uma vez eu digo: leia o cara, vá) me faz escrever contos mequetrefes com toda “semvergonhice” do mundo. e eu aposto que ninguém cobrou uma linha do Era uma vez o amor, mas tive que matá-lo. até porque se cobrassem, ele ia mandar um f@#a-se cuspindo todos os perdigotos no figura que viesse com tal disparate.

isso não é um manifesto. manifesto para isso seria uma frescura sem tamanho.

isso é apenas um aviso para você tem coragem de ler o que eu escrevo: não me cobre.

ou você cobra um sentimento de alguém?

e outra, se você chegou até aqui e agora tá pensando “mas que pretensioso, se comparar com salinger, juan rulfo e efraim medina”, aí vai outro aviso: se você passou da primeira linha, a responsabilidade é toda sua.

quando eu tiver que escrever para agradar alguém, eu começo a escrever por encomenda.