
Ninguém me entende, porque Ivete não deixa.
Hoje é tão difícil convencer alguém a ler mais de 5 linhas que eu desconfio que vou perder mais 15 minutos da minha vida tentando comprovar um ponto de vista que não interessa a quase ninguém. Mas, vamos lá.
Nós já tivemos Caetano, Chico, Jorge, Cartola, Tom, Tim, Vinícius, Gil, Gal, João Gilberto, Elis, Novos Baianos, Os Mutantes, Clube da Esquina, Roberto e Erasmo, isso porque estou escalando um time só com Pelés e esquecendo uma dezena de gênios por culpa da minha ignorância e pouca idade. Hoje nós temos os Pedro Sás, os Kassins, os Wados, os Amarantes, as Céus, os Ottos, os Fernando Catataus e uma mais de centena de grandes artistas na música brasileira; é tanta gente que qualquer nome que eu adicione aqui vai aumentar a injustiça.
Artista, ao contrário do que a grande massa brasileira deve acreditar, não é qualquer um que possa segurar um violão; ter a voz bonita também não faz a Ivete ou a Sandy serem artistas; se você sobe num palco, mesmo que abaixo dele tenham milhares de pessoas, mesmo assim, isso não faz de você um artista. Artista é, acho eu – e uma infinidade de pessoas – um Picasso, um Patativa do Assaré, um Chico Buarque. Ou seja: gente que faz arte. Pessoas que quando rabiscam alguma coisa num papel, quando cantam, quando produzem alguma coisa, estão pondo na frente de tudo a vontade de acabar uma obra, cheia de conteúdo, vazia, errônea, estúpida, não importa, pois a arte não precisa necessariamente ter uma função, mas é comum que tenha a intenção de acrescentar algo ao mundo, ou de não acrescentar nada, simplesmente para questionar a própria arte.
Não é a erudição que transforma qualquer coisa em arte, então, não é isso que faz Michel Teló ou Ivete não serem artistas. É simples mesmo. É só porque eles não fazem arte.
Qualquer pessoa no mundo tem direito de gostar de qualquer coisa. Ponto. Gostar e ser induzido a gostar são coisas diferentes. Ponto. Conhecer duas ou três coisas faz você ter a chance de escolher; logicamente, conhecendo apenas uma, você já sabe no que dá.
Quando um país erguia um ídolo, costumava ser porque ele fazia muito bem uma coisa. Claro, com o passar do tempo, pessoas espertas foram notando que erguer um ídolo também é uma chance de ganhar muito dinheiro. Michel Teló é um ídolo. Ivete também. Mas por favor, não chamem essa gente de artista. Não comparem o Neymar ao Pelé. Não achem natural pôr em pé de igualdde a Ivete e o Caetano, não, por favor. Não caiam nessa. Dancem, achem super divertido, compartilhem nas redes sociais, mostrem para o seu sobrinho – não para o meu filho – a música nova do Michel Teló e colem no sofá no especial de fim de ano com o Roberto Carlos cantando as mesmas músicas que ele canta faz 15 anos. Mas por favor, não achem isso o supra-sumo da cultura brasileira. Não sirvam de força propagadora para os espertos que só valorizam o dinheiro, pois há um monte de artista de verdade que também precisa de dinheiro; o Pedro Sá também paga conta de luz.
Parece que isso tudo é inofensivo, que é só mais um artista que apareceu e vai sumir, que é assim mesmo, o povo brasileiro gosta de coisa ruim, é natural e legítimo. Mas acontece que Chico não toca na rádio há 20 anos. Ivete tocou na rádio nos últimos 20 anos. Esse mesmo povo que foi pego por Michel Teló nunca teve a chance de ouvir Chico. A maioria dos pagodeiros que justificam seu gosto dizendo que aquilo “é música pra dançar”, nunca ouviram “Feijoada Completa” nem “A menina dança”. E já que essa mesma turma parece nunca ter triscado na boa cultura brasileira, é provável que eles também não se sintam encorajados a ler um Machado de Assis, discutir sobre o prefeito que vão eleger, pensar sobre qualquer coisa diferente do último capítulo da novela, estudar assuntos da própria profissão. Está todo mundo ocupado, ouvindo Ivete. Isso é mal para o Brasil, ou não? Um exemplo: alguém já ouviu um carro rebaixado tocando Vinícius para a cidade inteira ouvir?
Será que a falta de educação e a crescente falta de civilidade no brasileiro não têm nenhuma ligação com a maneira como estão sendo apresentados a eles esses novos ídolos, com a falta de cultura para onde o brasileiro está sendo empurrado? Será mesmo que não devemos nos revoltar nem um bocadinho ao ver que a Globo produziu um especial de final de ano que na prática fez todo brasileiro médio acreditar que Ivete pode ter valor cultural semelhante ao Caetano, será que é exagero achar que isso contribuiu mais ainda para o atraso de tudo? Quantos pequenos brasileiros não assistiram aquele especial e nem se tocaram de quem são Caetano e Gil? Em quantos concertos você já assistiu um dueto entre Bob Dylan e Britney Spears?
Eu sei que arte não salva um país e que todos os países têm suas porcarias. Mas os americanos não precisam – tanto quanto nós ainda precisamos – provar seu valor – a maioria do mundo acha que eles são donos do mundo -, os ingleses também não. Eles têm Bob Dylan e Beatles – e tantas outras coisas – e o mundo sabe disso. É triste constatar que alguns estrangeiros vão ouvir falar da música brasileira não por Caetano, mas por Ivete Sangalo, no Brazilian Day – e que por este e outros motivos, a mulher brasileira é lembrada no estrangeiro pelo “bumbum brasileiro”, “depilação brasileira”, “biquini brasileiro”, para não citar coisa pior. Nós temos tantas coisas boas e ruins quanto eles, mas precisamos implorar para ter um visto de trabalho nos Estados Unidos ou Europa. O brasileiro é visto lá fora como mal educado e talvez seja mesmo. Não vai ser propagando “Pererê” que vamos conquistar algum respeito. E eu arrisco, já que a educação é tão precária no Brasil, um Chico Buarque pode não salvar o país, mas ouvir antes do almoço faz pensar muito melhor.
Eu sei que parece difícil entender. Sei que pareço um velho falando dos artistas do passado, negando o sucesso do Michel Teló. Mas eu juro por Ivete mortinha, que mesmo hoje existem grandes artistas fazendo boa música, boa literatura, bom cinema e bom teatro, boa cultura brasileira, erudita ou popular, mas sei que existem. Conheço alguns. O que eles fazem dá pra ler quieto num canto ou dançar num churrasco, posso jurar.
Estou tentando explicar. Mas Ivete não deixa.

